By Fabio Teixeira
PORTO VELHO, Brasil, Sept 2 (Thomson Reuters Foundation) – Quando Maria Augusta Almeida, 45 anos, ouviu a tosse incessante do neto, ela sabia de quem era a culpa: dos incêndios que estão devastando a floresta amazônica, alguns deles a mais de 300 km de Porto Velho.
A fumaça que permeia a cidade no noroeste do Brasil, capital do estado de Rondônia, tem levado mães e pais a esperarem por horas nas filas dos hospitais locais para obterem ajuda para os filhos com dificuldades para respirar.
A Thomson Reuters Foundation visitou quatro postos de saúde da cidade, uma das mais afetadas pela fumaça dos incêndios da floresta tropical. Em todos eles, havia relatos de crianças, algumas delas bebês, que procuraram assistência devido à inalação de fumaça.
No último mês, o INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, revelou que o número de incêndios na Amazônia foi o maior desde 2010.
A informação deu origem a diversos apelos para que o país fizesse mais pela proteção da maior floresta tropical do mundo – essencial para o controle das mudanças climáticas -, contra o desmatamento e outras ameaças.
O presidente Jair Bolsonaro autorizou o exército a combater os incêndios, depois de diversos dias de protestos e críticas de líderes internacionais.
Em Porto Velho, os moradores dizem que o Hospital Infantil Cosme e Damião, administrado pelo governo do estado de Rondônia, se tornou o principal local de atendimento às crianças com dificuldades respiratórias.
Os sintomas da inalação da fumaça nos ambientes externos se tornaram um problema sério para alguns pais, já que eles não sabem como proteger os filhos das substâncias trazidas pelo ar.
A filha do vendedor local Mauro Ribeiro do Nascimento, de quase dois anos de idade, tem asma e não conseguia parar de tossir.
“Eu já levei ela no Cosme e Damião três vezes”, disse o pai. “Eles não estavam fazendo nada, só colocando ela na inalação”.
O procedimento consiste em ajudar o paciente a inalar o medicamento em forma de névoa através de uma máscara ou um bocal para o tratamento de problemas respiratórios.
Preocupado com o efeito da fumaça nos pulmões da filha, Mauro a levou a outro posto para fazer um raio X, que mostrou que os órgãos estavam “congestionados” devido à irritação causada pela fumaça.
Os funcionários do Cosme e Damião não estavam autorizados a dizer quantas crianças foram atendidas desde que os incêndios aumentaram, e não responderam aos pedidos de informação.
Mas voluntários e habitantes da região disseram que as filas aumentaram muito há cerca de um mês, quando a fumaça começou a tomar as ruas da cidade.
“A cidade estava tão cheia de fumaça que a gente não sabia se abria a janela pra entrar um ar fresco, ou fechava tudo, pra impedir mais fumaça de entrar” relata Sara Albino, estudante de enfermagem que é voluntária no hospital.
Nos dias de fumaça mais intensa, a filha de Sara, de 20 meses, precisou usar cinco vezes por dia o nebulizador que tem em casa.
Segundo a mãe, também foi necessário aplicar colírio constantemente para tratar a sensação de ardor nos olhos da menina.
“Os olhos dela não paravam de lacrimejar… estavam quase colados; era como conjuntivite”, disse ela.
INCÊNDIOS URBANOS
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os incêndios na Amazônia representam um risco à saúde, incluindo o risco de doenças respiratórias, especialmente em crianças.
Mas nem todos os incêndios que afetam Porto Velho estão distantes, na floresta, já que os fogos se tornaram uma forma barata de limpar a vegetação de áreas urbanas para dar espaço a construções, de acordo com os relatos dos moradores.
Na última semana, o aeroporto da cidade teve de ser fechado depois que a fumaça de um incêndio urbano ficou fora de controle. A vegetação nas margens da estrada que leva ao aeroporto foi totalmente queimada.
Os incêndios na floresta amazônica diminuíram um pouco desde que Bolsonaro enviou o exército para ajudar a combater as chamas na semana passada.
Enquanto isso, as famílias fazem o que podem em suas casas.
“Eu comprei um umidificador… a gente deixa no quarto da minha neta”, contou Raimundo dos Santos, 71, enquanto vendia água às pessoas que esperavam na fila em um posto de saúde em Porto Velho.
O aparelho, que aumenta a umidade do ar, tem ajudado sua neta de oito anos a respirar. Mas o resto da família ainda sofre.
“Eu mesmo já estive no hospital desde que as queimadas começaram”, disse Raimundo, que recebeu tratamento para inalação de fumaça.
(Com reportagem de Fabio Teixeira; edição de Megan Rowling. Os créditos da matéria devem ser atribuídos à Thomson Reuters Foundation, braço filantrópico da Thomson Reuters, que faz a cobertura de notícias humanitárias, direitos das mulheres e LGBT+, tráfico de pessoas, direitos de propriedade e mudança climática. Visite http://news.trust.org/climate)